A comovente angústia psicológica presente nos “Diários” da escritora Alejandra Pizarnik
A comovente angústia psicológica presente nos “Diários” da escritora Alejandra Pizarnik

A comovente angústia psicológica presente nos ‘Diarios’ da escritora Alejandra Pizarnik

Uma vida de intensidades!

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Alejandra Pizarnik é uma das vozes mais enigmáticas da literatura argentina contemporânea. Escritora e poeta, nascida em Buenos Aires em 29 de abril de 1936 e falecida em 25 de setembro de 1972 por ingestão excessiva de soníferos, sua obra ainda é obscura para muitos países que não são de língua espanhola.

Porém, a cada dia cresce o número de leitores dessa autora tão inacessível quanto fascinante.

Um inegável valor literário

Embora seus títulos mais conhecidos publicados no Brasil, “A árvore de Diana”, “Os trabalhos e as noites” sejam do gênero poesia, é em seus Diarios (Lumen Editorial, sem edição no Brasil) que Alejandra revela como suas imagens poéticas integram uma caleidoscópica visão de mundo, ora lírica, ora profundamente depressiva por não ter se sentido amada quando criança.

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Amiga de Julio Cortázar e Octavio Paz, compartilhou com eles o gosto implacável pela fusão pictórica entre fantasia, vida e morte.

Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido

Por meio da literatura diarística, conhecemos uma Pizarnik que ansiava por devorar o mundo, amar todas as coisas, em uma trágica necessidade de correr totalmente o risco de estar viva.

Como que se apoiando na linguagem para não naufragar nos pensamentos suicidas, Pizarnik nos legou parágrafos de imenso valor literário enquanto flertava com o abismo.

Veja a seguir algumas das frases mais marcantes de Diarios, edição que ficou a cargo de Ana Becciú.

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23 de outubro

Minha memória oculta o cadáver de que fui. Voz de uma mulher violada levantando-se à meia-noite. Apesar das minhas qualidades de humorista, digo que uma infância indignada merece o mais grave silêncio.”

8 de agosto

Você é culpado de ter feito para si mesmo um copo d’água inatingível para uma mulher sedenta que mal o conhecia. Você chega, você fala comigo, você sorri para mim, você me fascina: como eu poderia não entender que seu rosto bastava para enlouquecer a pequena órfã que eu fui – que sou, que serei – louca por sua causa. Você fala comigo e você vai embora. Você fala comigo e você fica em mim.”

23 de setembro

Estou tensa, com fome e ansiosa para me aniquilar. Adeus poesia e tudo. Que me batam para me dizer que não sou a única que existe. Eu quero morrer. Que algo aconteça comigo. Que me esfaqueiem. Que coloquem janelas e portas à minha frente e as abram. Eu me sufoco dentro de mim.”

Foto: Autor desconhecido

22 de setembro

As interrupções na minha vida são de frequência trágica. Lacunas, ausências, buracos. Talvez, se por acaso me fosse dado ser serena, pudesse indagar por que, sendo a escrita minha única saída, eu me proíbo de escrever.”

19 de setembro

Silêncio, o meu, o triste, o aberto, o desinteressado, o luxurioso, o magnífico, aquele que arrasta fotografias amarelas de ampulhetas, ídolos para rezar para que ninguém apareça na noite de longas esperas, palavras mutiladas que mostram seu sangue quente.”

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18 de setembro

Ubiquidade de seu rosto. Vejo-o em todos os lugares que não frequento. Basta um sinal do seu rosto e irei para o local do desaparecimento.”

23 de julho

Escolher: ou eu me caso com alguém que não me ama (nem eu a ele) ou estudo e cultivo uma vocação que não me ama.”

13 de julho

“Acordo maravilhada por acordar. É um milagre ter saído de ontem. O que vou fazer com o ontem, onde vou colocá-lo, como aceitá-lo, como integrá-lo passivamente ao meu passado.”

4 de junho

Isso é o que me apavora: nada, nada me une ou me liga a este mundo, nada além de medo, humilhações passadas, meu ressentimento sombrio, meu ódio silencioso. Como é que ainda persisto. Que força, que milagre estou realizando.”

Foto: Autor desconhecido

26 de maio

O medo feroz. O sorriso de quem me olha com carinho, de quem se preocupa com o meu medo. Então, sentir-me pura, inocente. A infância mais próxima, sem ameaças. Porque alguém se preocupa com o seu vazio.”

24 de maio

Há quanto tempo não tenho um desejo, um impulso, algo que sai como um jato de água, algo que não é comer ou beber ou ir ao cinema, quero dizer um simples impulso, como querer ver o crepúsculo, o pôr do sol, querer ver um amigo, querer escrever para ele, querer cantar, querer ler um determinado poema, querer caminhar, querer ver as estrelas, querer amar, querer saber… Ou mesmo querer chorar, querer gritar, querer lamentar. Algo, enfim, que anuncie que estou viva, que ainda não morri, que o sangue quente, forte e jovem corre pelo meu ser.”

24 de maio

Meus conteúdos imaginários são tão fragmentários, tão divorciados do real, que temo, em suma, dar à luz apenas monstros.”

24 de março

Essa espera indizível, essa tensão de todo o ser, esse velho hábito de esperar por quem sei que não virá. Disto eu morrerei, de espera enferrujada, de espera empoeirada. E quando já estiver morta há muito tempo, sei que meus ossos ainda estarão em pé, esperando: meus ossos estarão como cães fiéis, extremamente tristes no auge do abandono.”

28 de fevereiro

Às vezes, os rostos dos outros são portas. Uma porta entreaberta é um sorriso cansado que indica que ele tem uma certa simpatia por você, mas prefere que você vá embora.”

Foto: Autor desconhecido

Uma busca desesperada por alívio

O pai, já ciente do vazio sentido pela filha, foi quem financiou sua primeira obra, “A última inocência” (1956), que já contava com os traços que fariam dela uma figura vanguardista para a poesia contemporânea.

Alejandra Pizarnik tinha alívio apenas com a poesia, as anfetaminas (ela revelava em seus escritos também uma grande preocupação com seu peso) e os remédios para dormir. Chegou a ser internada por conta de insônia grave, decorrente da depressão.

Com o passar do tempo, em seus escritos foi-se firmando uma espécie de preparação para o suicídio, em uma época em que os remédios antidepressivos não eram tão popularizados nem tão eficientes quanto hoje – do contrário, sua história poderia ter sido totalmente diferente.

Tida por alguns como a “última escritora maldita”, Pizarnik nos deixou, além de uma obra de singular sensibilidade, um exemplo de como a Arte pode representar uma alternativa brilhante para aqueles que sentem que não se encaixam neste mundo.