Ouvir música tem quase o mesmo efeito da meditação, segundo a neurociência

A música também nos força a ter uma perspectiva centrada no presente.

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O que o Dalai Lama e um fanático pela música pirando em um festival às 3 da manhã têm em comum?

Uma quantidade surpreendente, na verdade.

Desde a melhora do humor e relaxamento até a união plena com o cosmos, a música tem a capacidade de mudar de forma poderosa nosso estado de espírito.

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A meditação não é tão diferente.

A meditação reduz o hormônio do estresse, o cortisol, nos ajuda a dormir melhor e reconecta o cérebro a uma série de qualidades emocionais positivas.

Tentar meditar em uma boate pode não estar no topo da lista de práticas recomendadas por monges e iogues, mas talvez devesse estar: quando você está totalmente imerso na música, você está experimentando o nirvana sem nenhum treinamento rigoroso.

Como músico e meditador, acredito que existe uma conexão entre os estados exaltados na pista de dança e os estados espirituais alcançados na meditação.

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Desde o final dos anos 90, venho trabalhando como DJ e produzindo música com nomes como Bassnectar, Santigold e Professor Green, além de ter sido treinado em meditação nas tradições budista tibetana e theravada.

O objetivo da música e da meditação é criar uma mudança poderosa e positiva em nosso estado mental.

A música é uma fonte confiável de experiência transformacional para muitos e somos atraídos pela música pelas mesmas razões que os meditadores meditam.

Música e meditação permitem uma experiência mais completa e rica de nossas emoções: elas param a nossa conversa mental incessante, muitas vezes negativa, e nos oferecem a oportunidade de habitar o momento presente de forma mais completa e significativa.

Tudo isso é importante para uma boa saúde e felicidade nos seres humanos.

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Música e espiritualidade

Música é quase meditação

A música é o mediador entre a vida dos sentidos e a vida do espírito” – Ludwig van Beethoven

Nossa espécie tem uma longa obsessão pelo ritmo, melodia e harmonia.

Os povos aborígenes da Austrália acreditam em “linhas musicais”, que manifestam a realidade e tudo o que há nela, e alguns nativos americanos acreditam que a vida foi provocada e sustentada pela “música do criador”.

A música faz parte de todas as tradições espirituais autênticas: ela tem sido utilizada como um elemento importante de ritos e rituais espirituais para unificar grupos uns com os outros e com o divino, para concentrar a mente, explorar verdades mais profundas e transcender os limites da existência comum.

Os mantras e ragas cantados das tradições hindus, os salmos de Davi na Bíblia, a sílaba semente de ioga “om” e os hinos das modernas igrejas evangélicas são exemplos de ferramentas que são universalmente usadas para levar os praticantes espirituais a estados superiores de consciência.

Então, o que há na música que transmite essas mudanças no estado mental quase instantaneamente, enquanto pode levar um meditador muitos anos para alcançar o mesmo efeito de forma confiável sem música?

Não é uma coisa, mas uma combinação de muitos efeitos diferentes que funcionam em diferentes partes do complexo corpo/mente.

Vamos dar uma olhada em alguns deles.

Escutando no presente

Música é quase meditação

A música pode ministrar a mentes doentes, arrancar da memória uma tristeza enraizada, acabar com os problemas escritos do cérebro e, com seu doce antídoto inconsciente, limpar todo o seio de todo o material perigoso que pesa sobre o coração” – William Shakespeare

Como a meditação, a música nos traz ao presente.

Mas ao contrário de uma pintura, que pode ser percebida como um todo mais ou menos instantaneamente, uma peça musical é impossível de acessar em sua totalidade sem prestar muita atenção por toda a duração da música.

A música nos força a ter uma perspectiva centrada no presente sobre a realidade, a fim de nos engajarmos nela.

Seja Debussy ou Deep House, para perceber uma peça musical, temos que seguir cada batida ou nota, conforme acontece em tempo real. Essa sensação de estar presente é boa; não estar presente pode até nos tornar infelizes.

Uma das razões pelas quais amamos tanto a música é que podemos esquecer nossos problemas e simplesmente ser.

Imerso no som e desprovido da angústia habitual da vida, percebemos nosso mundo a partir de um estado de fluxo hiperpresente.

O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi define fluxo como “o estado em que as pessoas estão tão envolvidas em uma atividade que nada mais parece importar”.

Um dos marcadores do fluxo é a “hipofrontalidade transitória”, que é um estado em que nosso senso de “eu” temporariamente se desativa e as partes do cérebro que geram sentimentos como ansiedade e insegurança são subjugadas.

Neste estado, a atividade se torna inteiramente recompensadora em si mesma, sem levar em conta o resultado.

A vida poderia ser assim o tempo todo?

A maioria das tradições de meditação supõe que a resposta a esta pergunta é sim.

Elas trabalham com o fluxo como uma ferramenta, utilizando estados meditativos chamados “jhana”, que preenchem os critérios para os estados de fluxo que a audição e a reprodução da música podem gerar.

Como os grandes sábios do sudeste da Ásia têm nos dito desde a Era Axial, a porta para a felicidade é aberta quando podemos nos livrar do nosso senso de “eu” e da neurose que vem com ele.

Mude a estação mudando a música

Música é quase meditação

Uma coisa boa sobre a música, quando ela bate você não sente dor” – Bob Marley

Na maior parte do tempo, os humanos estão presos preocupados com o passado e o futuro, e não com o presente. Isso acontece quando um subsistema do cérebro chamado de rede de modo padrão está ativo.

Embora normalmente resulte em pensamentos ansiosos e estressantes, evolutivamente oferece grandes benefícios.

Passamos muito do nosso tempo refletindo sobre eventos passados para aprender com o que deu errado, e pensamos em eventos futuros para nos prepararmos para eles.

Mas por causa de outra adaptação evolucionária chamada viés de negatividade, grande parte dessa reflexão está focada em eventos negativos, tanto do passado quanto do futuro.

Isso faz com que nos cobremos mental e emocionalmente.

Em um estudo de Harvard, feito pelo psicólogo e autor de Tropeçar na felicidade, Daniel T. Gilbert, a perambulação mental tem estado intimamente ligada à infelicidade.

Ele e o coautor Matthew Killingsworth afirmam que “uma mente humana é uma mente errante, e uma mente errante é uma mente infeliz”.

Quando ouvimos música, a pesquisa mostrou que a rede de modo padrão está ativada, mas com um resultado emocional muito diferente.

Quando a rede de modo padrão é envolvida pela música que amamos, parece que, apesar de estarmos em um estado de repouso (que é o típico playground para as divagações negativas da rede de modo padrão), a mente foca na música.

Em vez de se preocupar com o projeto pendente no trabalho, a fatura de cartão de crédito não paga, ou o que vestir no casamento no próximo fim de semana, nós somos sugados pela música.

Durante a duração dessa música ou concerto, é muito menos provável que combinemos nossas memórias ou futuro com traumas ou eventos negativos ou não resolvidos.

Doce alívio!

Por milhares de anos, os meditadores budistas conhecem os efeitos de uma rede de modos padrão ativada como “vagar pela mente”, e as ferramentas para transcendê-la são incorporadas ao sistema de meditação.

Ao usar intenções gentilmente repetidas, anotações de pensamentos à medida que surgem e um aumento geral do poder mental, a meditação budista nos permite transcender as imaginações aleatórias e negativas sobre o passado e o futuro.

Estudos realizados em Harvard mostram que a meditação inibe o funcionamento da rede de modo padrão que está associada à perambulação mental ansiosa.

O estado mental “aqui e agora” resultante gera um profundo senso de calma, bem-estar e uma forte conexão com os outros.

Na verdade, as qualidades inibidoras do modo padrão da meditação podem ser um dos principais fatores determinantes de sua capacidade bem documentada de reduzir a ansiedade e os distúrbios relacionados ao estresse.

Usar as habilidades de meditação para se concentrar em onde estamos e com quem estamos – o que significa “viver no momento presente” – reduz drasticamente os tipos de pensamento que causam infelicidade.

Coloque tudo para fora

Música é quase meditação

A música era meu refúgio. Eu conseguia rastejar para o espaço entre as notas e virar as costas para a solidão” – Maya Angelou

A música também nos ajuda em momentos emocionais desafiadores.

Quem não se sentou em uma crise de autopiedade e escutou uma das tragédias deprimidas de Nick Drake, a doce tristeza do abandonado Marvin Gaye, um impossivelmente sombrio álbum do Cure, ou o diário adolescente de Adele?

Buscar nossa música favorita para nos animar é comum, mas muitas vezes nos sentimos estranhamente atraídos por ouvir música triste e dramática quando nos sentimos tristes.

Por que faríamos isso para nós mesmos quando já estamos nos sentimos uma m#rd@?

“A música afeta os centros emocionais profundos do cérebro”, diz Valorie Salimpoor, neurocientista da Universidade McGill, que estuda os efeitos da música no cérebro humano.

Estudos do Reino Unido mostram que, muitas vezes, temos uma espécie de reflexão catártica sobre a música deprimente que é ótima a longo prazo.

Como mencionado anteriormente, ouvir música ativa a rede de modo padrão, mas também estimula o cérebro para empatia.

Como um mecanismo de enfrentamento para nos preparar para o trauma emocional descrito na música, o cérebro cria um potente coquetel de neuroquímicos que nos fazem sentir bem.

Quando a música termina (e o falso trauma com ela), nosso cérebro está inundado pelos neurotransmissores restantes.

O resultado é um cérebro imerso em um banho quente e difuso de opiáceos. Drogas grátis!

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer resumiu perfeitamente:

A inexprimível profundidade da música, tão fácil de entender e ainda assim tão inexplicável, se deve ao fato de que ela reproduz todas as emoções do nosso ser mais íntimo, mas inteiramente sem realidade e distante de sua dor.”

A meditação também é uma maneira de experimentar nossas emoções mais plenamente.

Mas em vez de terceirizar nossa expressão emocional à música, na meditação somos ensinados a acalmar a mente e deixar que as emoções latentes e reprimidas surjam.

Em um estado de plenitude relaxada, permitimos que as emoções surjam sem reprimi-las ou ficar presas nelas, e dessa maneira os sentimentos, memórias e traumas podem se expressar completamente em um espaço seguro.

Isso gera maior alfabetização emocional, libera emoções negativas armazenadas que podem causar doenças e aumenta nosso foco e plenitude – todos associados à felicidade.

Música é demais

Música é quase meditação

A música é uma lei moral. Dá alma ao universo, asas à mente, fuga à imaginação e encanto e alegria à vida e a tudo” – Platão

Tem sido demonstrado que ouvir música também libera um poderoso composto chamado dopamina, que é um dos neuroquímicos da felicidade.

É bem conhecido por ser a droga de escolha do cérebro para ações encorajadoras que são boas para reprodução e sobrevivência.

“É interessante pensar que, enquanto os animais recebem essas ‘recompensas’ de coisas como comer e sexo… os humanos as tiram de prazeres estéticos ou abstratos como arte, poesia ou música, que, até onde sabemos, não têm nenhum valor de sobrevivência, Salimpoor diz em um de seus estudos.

Ela fornece uma dose de euforia que deixa você desejando mais, e é por isso que é um motor tão potente de comportamento.

É o mesmo neuroquímico que leva os humanos a perseguir a cocaína implacavelmente até às 2 da tarde, depois de ficar acordado a noite toda, está associado com o ato de se apaixonar, e, sim, também possui características na experiência de meditação.

A dopamina é uma grande parte do que é pensado para tornar a música atraente para o cérebro humano.

Mas há uma diferença com a meditação: você obtém a dose da dopamina, mas sem o desejo de mais.

Como mostra este estudo sobre a meditação Yoga Nidra, praticar essa meditação baseada na yoga aumenta o efeito euforia da dopamina, mas diminui a necessidade de agir.

Isso deixa o meditador com o “barato” da dopamina, mas com uma probabilidade muito diminuída de que ele fará algo perigoso ou estúpido para manter a energia alta (olá, cocaína!).

Na meditação budista, você se treina para diminuir o desejo de agir de acordo com os impulsos evolutivos que são reforçados pela dopamina.

Os budistas acreditam que isso está diretamente ligado a uma redução do sofrimento e a um sentimento elevado de felicidade e conexão no dia a dia.

Na verdade, depois de perceber o nirvana, o Buda histórico declarou na primeira e segunda de suas Quatro Nobres Verdades que “a causa do sofrimento é o desejo”.

Sentindo uns aos outros

Música é quase meditação

Eu acho que música é algo pelo qual todos nós somos tocados. Não importa de que cultura somos, todo mundo ama música” – Billy Joel

Como um frequentador regular de show de música sabe, há momentos em que a multidão parece se tornar uma entidade única: áreas da arena se movendo e fluindo como uma onda em um oceano de vibração, a singularidade de qualquer pessoa perdida em uma união sísmica que é além do físico.

O sentimento é empolgante e feliz, e quanto mais tempo durar um show, mais harmonizado e integrado o público se torna.

O que chamamos de “vibe” no clube ou show musical pode ser quantificado tanto psicologicamente quanto fisiologicamente.

No mundo da meditação, essa experiência é explicada como uma perda de si mesmo no grupo.

O ímpeto de unidade e união que surge é devido à perda do ego, substituído por algo que os iluminados escreveram por milênios: que estamos todos conectados de maneiras muito mais profundas do que aparece na superfície.

Os cientistas estão medindo essa experiência coletiva em shows.

Eles descobriram que, quando nos reunimos em grandes grupos em frente a artistas ao vivo, há uma sincronia cerebral na faixa delta que está relacionada tanto ao maior prazer da experiência (a alegria), mas também à afiliação com os que estão no show (unidade).

E por que os fãs de shows musicais e raves geralmente são muito abertos e amigáveis?

A música tem a capacidade de transpor tendências emocionais do sentido auditivo para o sentido visual.

Isso significa que, depois de ouvirmos música que nos traz felicidade, interpretamos a visão dos rostos dos outros como sendo mais felizes, independentemente de sua expressão facial real.

Desta forma, a música não apenas nos torna mais felizes, mas nos permite abandonar nossas suposições e nossos julgamentos sobre os outros.

Em vez disso, interpretamos o mundo à nossa volta como um lugar mais feliz. (Novamente, esta é uma ferramenta primária e meta de meditação.)

Pesquisas do Conselho de Pesquisas em Artes e Humanidades descobriram que a música também é um contágio emocional: os participantes mostram associações mais positivas com imagens de pessoas de dois grupos culturais diferentes depois de ouvirem música que pertence explicitamente a esse grupo cultural.

Os pesquisadores sugerem que as ondas cerebrais e a fisiologia dos participantes estavam se alinhando de maneiras mensuráveis – o que os cientistas chamam de “arrastamento”.

Com a música, esse arrastamento não é apenas um alinhamento dos componentes rítmicos e melódicos da música, mas há também um arrastamento emocional que ocorre ao mesmo tempo.

Isso cria uma conexão quantificável e um efeito positivo.

As meditações budistas de “bondade amorosa” fazem uma coisa muito semelhante. Ao treinar para o arrastamento emocional, os meditadores experimentam efeitos pró-sociais pronunciados na vida cotidiana.

Este estudo mostra que “a prática de meditações de bondade amorosa levou a mudanças nas experiências diárias das pessoas de uma ampla gama de emoções positivas, incluindo amor, alegria, gratidão, contentamento, esperança, orgulho, interesse, diversão e admiração… Elas permitiram que as pessoas ficassem mais satisfeitas com suas vidas e sentissem menos sintomas de depressão”.

Aumenta até mesmo a massa cinzenta do cérebro em regiões relacionadas à resposta empática, ansiedade e regulação do humor.

Tanto os fãs de música quanto os meditadores sabem que o sentimento ligado a nós mesmos e aos outros é ótimo.

Só que os meditadores não esperam que D’Angelo faça uma turnê ou os Pixies se reúnam (de novo): nós pegamos o que os fãs de música conhecem e retreinamos nossos caminhos neurais para fazer a mesma coisa, se há música tocando ou não.

Música ou meditação – eis a questão

A meditação pode tornar a vida mais musical e a música pode trazer uma profunda paz interior” – mestre de meditação Sri Sri Ravi Shankar

O estudo de como a música afeta o complexo mente/corpo é um campo relativamente novo, mas você não precisa de um cientista para lhe dizer como seu estado mental muda enquanto ouve sua música favorita – você pode sentir isso sozinho.

Isso nos traz mais perto de sermos capazes de entender a vida e o nosso lugar nela e nos ajuda a transcender o ego, nos conectando com aqueles que nos rodeiam de uma maneira mais positiva, holística e saudável.

Há muitas qualidades que podemos experimentar sob a influência da música sem treinamento formal. Estas incluem maior foco, empatia, baixos níveis de estresse, alívio da dor e tendências pró-sociais.

Estes também são efeitos e objetivos bem documentados dentro dos vários sistemas de meditação budista.

Então, da próxima vez que você estiver ouvindo sua música favorita no clube ou em um show, tire um segundo ou dois para perceber a magia que ela cria.

Pergunte a si mesmo: “Como seria ter esse sentimento o tempo todo?”

Este artigo é uma tradução do Awebic do texto originalmente publicado em Quartz escrito por Darin McFadyen.

Imagens: pexels.com e pixabay.com

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